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Crise chega também ao salão de beleza

04-05-2016

Simone Araújo e Tânia Diniz trabalhavam como cabeleireiras na periferia de Osasco (SP). O salão de uma ficava a cinco minutos do da outra e não era novidade para ninguém que Simone e Tânia disputavam a mesma clientela há mais de uma década. O inesperado foi que, a partir do ano passado, essa concorrência que seguia até então equilibrada começou a prejudicar a vida das duas. “As clientes começaram a gastar menos, a virem menos para o salão, e nós duas estávamos perdendo dinheiro”, lembra Simone, que assistia ao lado de Tânia a evolução dos custos e a retração do fluxo de caixa. “A gente conversou e percebeu que seria melhor parar de competir. Chamamos as clientes e informamos que iríamos juntar os dois salões. Todo mundo gostou”, conta Simone.

Hoje, quase um ano depois da operação, as duas cabeleireiras de Osasco respiram mais aliviadas. Não somente por conseguirem finalizar o processo de fusão, mas por captarem no início um fato até então inédito para setor. Conhecido por reagir bem aos solavancos da economia, com altas acumuladas mesmo em momentos de crise, o mercado de beleza e cosméticos entrou de vez na roda da recessão brasileira em 2015, com queda real de 8% em relação ao ano anterior. Só o segmento de cabelos, que tradicionalmente puxa a fila do faturamento do setor, despencou 14,2% no ano passado, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abhipec).

“Esse negócio de que o nosso mercado não sente o impacto da crise, de que as pessoas se refugiam na beleza em momento ruins da economia, não existe. A crise pode ter demorado um pouco para aparecer, mas apareceu”, conta o presidente da rede de salões Jaques Janinie, Olivier Chemin, que tem 67 unidades no Brasil e uma nos Estados Unidos. “Ficou mais caro trabalhar. Os produtos estão mais caros. E os clientes estão com menos dinheiro”, analisa o executivo, que mesmo prevendo crescimento em número de lojas – o plano é inaugurar sete unidades –, sabe que o faturamento não vai subir. “Se a gente empatar o ano passado, está bom”, afirma.
Para os sócios Rodrigo Lima e Patricia Saito, donos de dois salões na região da Avenida Paulista chamados Circus, o principal problema é que a frequência do cliente está menor. “Quem era o heavy user, aquele que ia toda semana ao salão, agora vai a cada 20 dias, vai uma vez por mês. O impacto disso é grande”, conta Lima. “O consumidor está economizando.”

Segundo dados da fabricante francesa de cosméticos L’Óreal, a brasileira tende a ir a cada 60 dias ao cabeleireiro para tratamentos mais complexos, como retoque da tintura. “Mas nesses 60 dias ela volta para fazer a unha, cortar o cabelo, fazer uma escova”, conta o diretor-superintendente da divisão de produtos profissionais no Brasil, Mikael Henry. Segundo a consultora da divisão de beleza do Sebrae-SP, Maisa Blumenfeld, é justamente nesse intervalo de dois meses que o empresário do ramo está hoje sentindo a maior diferença. “A cliente não parou de se cuidar, mas está fazendo a unha em casa, assistindo tutorias de internet para fazer a manutenção do cabelo. Com isso, o faturamento das empresas do setor está caindo muito”, observa Maisa.

Lucro. Não bastasse a queda de receita, outro desafio do setor é a redução de margem de lucro, principalmente de um ano para cá. Com a desvalorização do real frente ao dólar e o aumento da carga tributária aplicados aos cosméticos, o custo fixo dos salões subiu muito. Acredita-se que nos últimos 12 meses a margem operacional do ramo está 36% maior. Uma inflação que não foi integralmente repassada aos clientes, justamente para não assustar. “Não dá para aumentar os preços em 40%. A gente precisou absorver grande parte disso”, conta Rodrigo Lima, do Circus.

O impacto direto dessa alteração se dá na margem de lucratividade, tradicionalmente baixa no setor e que agora está ainda mais achatada. “Tem gente trabalhando com 6%. Nós estamos com 8% e, menos do que isso, melhor deixar o dinheiro na poupança”, brinca Chemin, do Jaques Janinie. De acordo com Maisa Blumenfeld, do Sebrae-SP, esse é um sério risco. “Esse é um negócio onde o ganho é no giro. Mas com pouco cliente e lucro tão baixo, muitos salões vão fechar.”

Fonte: Estadão

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